“Cenário de guerra”: o relato de uma jornalista do Guiame que foi afetada pelas enchentes

 “Cenário de guerra”: o relato de uma jornalista do Guiame que foi afetada pelas enchentes
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Por Cássia de Oliveira, jornalista do Guiame e moradora de Porto Alegre

Na primeira semana de maio, antes do caos começar, lembro que começou a chover bastante em Porto Alegre. Naqueles dias, não dormi direito com o barulho dos trovões e porque estava preocupada com as goteiras que surgiram no meu apartamento.

Nem imaginava que o pior estava por vir. Na sexta-feira (3), o governador do Rio Grande do Sul começou a anunciar que as enchentes no estado seriam piores do que a cheia de 1941. 

Como todo gaúcho conhece a história da tragédia da década de 40, os moradores ficaram muito assustados. No ano passado, já tínhamos enfrentado uma enchente do Rio Guaíba na região metropolitana e o sistema de contenção havia falhado.

Então, um medo coletivo começou a surgir. Como jornalista, já havia feito a cobertura de diversas catástrofes naturais, mas viver uma era bem diferente. Enquanto acompanhava as notícias, minha ansiedade piorava.

Nesses momentos, lembramos que como seres humanos não temos controle de nada e a sensação de ter certo controle de nossas vidas é completamente falsa. No final de semana, o governo do RS começou a emitir alertas de evacuação, foi nesse momento que percebi que a situação realmente era grave.

Na região do Vale do Caí, a água já havia invadido diversas cidades. Cenas de desespero começaram a circular no noticiário. Casais abraçados em cima do telhado de casa e uma residência inteira sendo levada pela correnteza.

Pânico e evacuação

As autoridades pediram para a população não entrar em pânico, mas a levarem a sério os pedidos de evacuação. Porém, o mapa de regiões que seriam inundadas, divulgado pela Defesa Civil, gerou angústia e confusão.

Na capital, por exemplo, o mapa não citava os bairros e nem as ruas que a água chegaria, dificultando os moradores a entenderem se deveriam ou não sair de casa. Nos comentários da postagem no Instagram, muitos reclamaram e perguntavam se seu bairro seria atingido, gerando desespero. 

Mesmo após as reclamações, a comunicação da Defesa Civil do RS não melhorou e não ajudou a acalmar a população. Foi necessário um pesquisador da UFRGS vir a público e explicar o mapa.

Na manhã de sexta-feira (10), a prefeitura de Canoas começou a pedir que os moradores de alguns bairros evacuassem imediatamente. O aviso foi feito nas redes sociais sem antecedência, dando a impressão que o alerta não chegou a muitos moradores.

A mãe e toda família do meu noivo moram no bairro Mathias Velho. Eu e meu noivo avisamos que ela deveria sair de casa e ir para o meu apartamento em Porto Alegre. Nesse momento, o medo tomou conta de mim. Só fiquei em paz, quando minha sogra chegou no meu portão, carregando uma pequena mala, que seria tudo o que lhe restaria mais tarde.

O bairro do meu noivo também corria risco de inundação. Então, decidimos passar o final de semana todos juntos em meu apartamento. Estaríamos mais seguros lá, porque a região onde moro seria atingida apenas se o Rio Guaíba atingisse os 6 metros de altura. 

No sábado (4), o bairro Mathias Velho já estava submerso pelas águas, assim como outros bairros de Canoas. Em Porto Alegre, a água já havia invadido o centro histórico. As cenas das ruas, que tanto andei, tomadas pelo rio eram chocantes. Parecia cena de filme.

Crise de abastecimento


O Rio Guaíba invadiu Porto Alegre e parte da Região Metropolitana. (Foto: Flickr/Palácio do Planalto/Ricardo Stuckert/PR).

Na região metropolitana, começou a faltar água, energia elétrica e sinal de internet em vários pontos. Na minha casa, não havia água, mas ainda havia luz. A Corsan informou que a situação de abastecimento era complicada e que ainda não tinha previsão de retomada.

Por isso, tive a ideia de captar água da chuva, já que continuava chovendo sem parar. Coloquei dois baldes embaixo das calhas, que encheram até transbordar em poucas horas.

Em todos meus 30 anos, nunca tinha presenciado uma tragédia dessa magnitude. Na manhã daquele dia, eu e minha sogra decidimos ir ao supermercado comprar mantimentos para passar o final de semana. Nas redes sociais, já havia comentários de que faltaria alimento e água mineral em Porto Alegre.

Chegando no hipermercado, presenciamos o desespero das pessoas, em um verdadeiro cenário de guerra. Começando pela luta em encontrar um carrinho disponível. Depois de achar um no estacionamento, entramos no mercado com o objetivo principal de conseguir água. 

Fomos direto para a sessão das bebidas, rapidamente. Para a nossa decepção, as prateleiras das águas de 5 litros já estavam vazias. Só restavam água com gás e fardos de garrafinhas pequenas. Pegamos dois fardos e continuamos as compras.

Além das filas quilométricas, e algumas prateleiras já vazias, outra coisa que notei foram alguns consumidores comprando frango, cobertores, colchões infantis e travesseiros em grande quantidade. Logo, percebi que seriam levados para doação em pontos de coleta, que começaram a surgir em todo o RS.

Onda de generosidade e compaixão

Naquele final de semana, em questão de minutos, milhares de moradores perderam tudo o que tinham e ficaram desabrigados. Durante a catástrofe, o poder público não dava conta de ajudar todas as vítimas das enchentes, incluindo nos resgates de pessoas ilhadas.

Foi então, que uma força gigante direto do povo nasceu e começou a atuar no meio do caos de forma apaixonada. 

Enquanto civis que possuíam barcos e jet ski entravam na água para salvar idosos, crianças e mulheres, igrejas passaram a abrir suas portas para receber os desabrigados. Muitos deles chegavam molhados, com frio e exaustos.

Uma onda de generosidade e compaixão tomou o povo gaúcho. As igrejas deixaram de lado suas diferenças teológicas e se uniram para socorrer os afetados, como nunca visto.

Gremistas e colorados, brancos e pretos, pobres e ricos, todos trabalhavam lado a lado. As diferenças desapareceram por um propósito maior: salvar vidas. O lema dos voluntários que faziam resgate era: salvar todos, ninguém ficaria para trás, incluindo animais de estimação.

Pedidos de resgate no Instagram

No domingo (5), o clima em todo estado era muito pesado. Um sentimento de tristeza coletiva era sentido no ar. Nas redes sociais, que antes mostravam a rotina de amigos e famílias, se tornou um mural de pedidos de socorro e informações de ajuda humanitária.

Não haviam mais frases motivacionais, fotos, memes. Não conseguindo socorro das autoridades – já sobrecarregadas – as próprias vítimas da cheia pediam para ser resgatadas em suas casas tomadas pela água. Familiares e amigos também compartilhavam até o pedido chegar em algum voluntário que fazia resgate naquela região.

Ao passar os stories do meu Instagram, vi pedidos de resgate para conhecidos, amigos e irmãos na fé por toda a região metropolitana, principalmente em Canoas, Eldorado do Sul e Guaíba. Foi algo terrível e apavorante de presenciar.

Por causa da queda da energia e instabilidade do sinal de internet, muitas vítimas ficaram sem comunicação e as famílias buscavam notícias delas nas redes sociais, desesperadamente.

Logo, eu mesma postaria um pedido de resgate para avó do meu noivo, que ficou presa no segundo andar de uma residência em Canoas. Foram longas horas de angústia até ela e outros familiares serem resgatados.

A fuga

Na noite de domingo (5), eu, meu noivo e minha sogra decidimos ir para o litoral, em busca de água e internet para trabalhar, assim como milhares de moradores que fugiram do caos de Porto Alegre e Região Metropolitana. 

Enquanto viajamos pela estrada lotada, os pais dos meus noivos, que perderam a casa nas enchentes, louvaram a Deus em meio a dor, dando o exemplo de uma fé inabalável. “És fiel em todo tempo, em todo tempo tu és tão, tão bom. Com todo fôlego que tenho, eu cantarei da bondade de Deus”, cantaram juntos.

A força da Igreja

Assim como na pandemia da Covid-19, mais uma vez a Igreja se destacou como refúgio e apoio para a população afetada. Rapidamente, os cristãos se organizaram e abrigaram famílias, forneceram refeições, roupas e atendimento médico.

Outros se arriscaram nas enchentes para salvar vidas. Meu líder de jovens foi um desses. Seu barco atendeu centenas de pedidos de famílias para socorrer seus entes queridos. Um amigo, que é atleta de triatlo, salvou sua noiva, que quase morreu afogada. A sobrevivência de muitos gaúchos é um verdadeiro milagre e a misericórdia de Deus manifesta.

Buscando a Deus enquanto ainda há tempo

Mesmo em meio a tanto sofrimento, Deus está se movendo de acordo com seus propósitos, enquanto continuamos lutando por nosso estado e nossa sobrevivência.

O maior testemunho anunciado entre os cristão é estar vivo e seguro, diante de tantas mortes e feridos. Um despertar espiritual está acontecendo no RS, com muitos desabrigados se rendendo a Cristo nas igrejas e sobreviventes voltando para Jesus. 

Além disso, a Igreja tem se levantado em oração. Nunca se orou tanto, começando por mim. Precisamos muito da oração dos nossos irmãos em todo o Brasil. Ainda temos mais enchentes para enfrentar e recomeçar não será fácil.

O Rio Grande do Sul tem aprendido que, apesar dos governos terrenos perderem o controle e a natureza ser incontrolável, Deus continua no controle da história. Nada escapa de sua mão poderosa.

Embora percamos tudo, o Senhor nunca nos deixará desamparados. Se Ele não acalmar a tempestade, Jesus estará junto conosco na tormenta. 

Muitos gaúchos têm vivido dias de Jó, e assim como ele, com fé estão declarando: “O Senhor deu, e o Senhor tomou: bendito seja o nome do Senhor”. Nenhuma provação calará nossa adoração. 

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